segunda-feira, 3 de julho de 2017

Eu, a Leste

Na minha rua, há uma loja de produtos do Leste europeu. Hoje, passando pela porta, deu-me para entrar. Alguns pares de olhos com aquele tom de quem teve uma insónia leve, caras para mim algo inexpressivas, de sorrisos escassos, em cabeças loiras, olharam placidamente o "alien". 

Tenho um imenso respeito por quem veio, do outro lado da Europa, tentar a sorte da vida por aqui. Sou, de há muito, um assumido fã dessa imigração. (Sei que é "politicamente incorreto" escolher entre os imigrantes, mas eu assumo a discriminação). Tirando as máfias e os ricos abrutalhados, há uma imensidão de gente de bem oriunda dos países da antiga União Soviética que por aí vive, trabalhando no duro, com filhos nas escolas, muitas vezes falando português quase melhor do que nós (as sonoridades eslavas facilitam isso). Frequentemente - e volto ao simplismo impressionista e à sociologia de pacotilha que aduba as redes sociais -, alguma rigidez e imobilidade naqueles rostos pode causar-nos estranheza, chegando a induzir desconfiança em algumas pessoas. Quem trabalha no dia a dia com imigrantes do Leste diz-me que, passando essa barreira idiossincrática, que pode resultar nalguma dureza fruto das dificuldades da vida, estamos, em geral, perante gente determinada, trabalhadora, fiel aos seus compromissos. Há exceções? Há, como há, e muito, entre os portugueses.

Regresso à loja. Olhei as prateleiras com alguns produtos designados em cirílico e lembrei-me da graça que achava, aqui há uns anos, em fins de semana a errar por Paris, ao encontrar uma mercearia de produtos portugueses, coisas que por cá nunca me passaria pela cabeça trazer para casa.

(Um dia, numa loja perto da Porte d'Italie, a minha mulher surpreendeu-se ao ver-me apresentar, na caixa, uma garrafa de brandy Macieira 5 estrelas: "Para que é que compras isso? Não te estou a ver a beber brandy..." Comprei, claro. Nunca abri a garrafa, mas sabe-se lá se um dia me dá uma de saudade e bebo um cálice (ainda guardo alguns com aquela risca encarnada). Saudade de quê? De mim, nessa idade em que bebia brandy e não me fazia mal. É que, desses tempos de total impunidade hepático-digestiva, confesso, tenho insuperáveis saudades.)

Saí da loja de Leste sem comprar nada. Mas ainda olhei, concupiscente, para um vodka. Mas lembrei-me de que tenho por casa algumas garrafas intocadas desse líquido dos deuses e que seria um excesso somar-lhe, sem o menor objetivo, uma outra. Mas fiquei a imaginar que o vodka seja, para os imigrantes de Leste, o que o Macieira 5 estrelas é para muitos portugueses que lutam pela vida no mundo, fora da terra de que tanto gostam - e que, infelizmente, lhes não deu condições para aí se realizarem. A emigração é a grande fábrica de saudades.  

10 comentários:

Luís Lavoura disse...

Se o Francisco tem incompatibilidades hepáticas com os álcoois duros, aconselho-o a tentar aguardente vínica (ou "aguardente velha"), a que é feita pela destilação de vinho (em francês, cognac ou armagnac). É muito menos agressivo para o fígado, porque não contem metanol, ao contrário das outras aguardentes, que quase todas contêm metanol (embora em quantidades minúsculas, claro).

Anónimo disse...

eh pá, já não há macieira. os franceses puseram aquilo a ser feito em espanha.

patricio branco disse...

maravilhosas pessoas as de leste com boa cultura média, simpatia, as mulheres bonitas, organizados, a helena ajudou-nos nas lides da casa durante 4 anos 2 tardes por semana, ucraniana, já se foi, excelente mulher, quando se foi indicou outra amiga para vir, excelente também, a helena voltou para a sua ucrania, espero que esteja como merece que merece muito.
as lojas de leste têm sobretudo vodkas e uma variedade de arenques, e umas salsichas, comprei numa 2 vodkas mais pelas garrafas e cores, não leio bem os rótulos em cirilico, não transcrevo a marca.
ali perto de sta apolónia há, ou havia até há pouco, um supermercado de leste, escondido por uma bomba de gasolina, no outro lado da esquina está um lidl.
na almirante reis há uma mercearia turca.
no martin moniz há o interessante centro comercial etnico, africa, india, china.
mas as melhores aguardentes vinicas são as grappas italianas, os bagaços deles, as castas das uvas contam, feitas a partir dos vinhos de tal ou tal casta.
E os franceses produzem na arménia o esplêndido conhaq armenio, perceberam que é tão bom como o francês e compraram as vinhas e fabricam-no, exportado como arménio, claro.
mas tambem não me convem beber muito dessas bebidas espirituosas boas, tambem não me convem, etc etc

Portugalredecouvertes disse...

Sr. Embaixador, um texto simples mas que diz muitas verdades !
Há muitas pessoas do leste a viver no Algarve, e salvo as exceções, a regra é que são muito apreciadas pelas suas qualidades !!!

Anónimo disse...

Isso das saudades é complicado. Uma vez em Budapeste, onde tinha ida passar uns dias, estando da altura a trabalhar na Ucrânia, descobri Água do Luso, foi uma satisfação. Comprei garrafas grandes e levava-as para todo o lado, restaurantes inclusive.

Os ucranianos são gente capaz e trabalhadora é sofrida e é com muita satisfação que venho muitos deles pedirem a nacionalidade portuguesa e ficarem a viver no nosso país.

Anónimo disse...

A leste...

Anónimo disse...


O regime comunista deixou traços profundos nos países por ele colonizados.
Essas populações aprenderam como se vive mal sob eessa colonização e não pensam senão nunca mais a terem. Trabalham até para esquecerem os efeitos desses tempos porque aprenderam a preservar a liberdade que tinham perdido.

Ele é o traumatismo profundo desse regime deixado naqueles que o tiveram sem o desejar.

Do que nos safámos nos anos 70 nem podemos imaginar.
Mas as consequências ainda estão bem presentes nas relações entre empregadores e assalariados.

Helena Sacadura Cabral disse...

Meu caro Francisco
Eu já lá fui. Primeiro bisbilhotei e depois conversei. De seguida conheci a simpática Embaixadora da Roménia. E agora já "sei" de uns produtos interessantes!

Anónimo disse...

A história da "Macieira" em França sei o que é, contado por um familiar que lá está radicado. Era a sua bebida preferida para finalizar uma refeição, quando o seu fígado ainda o permitia. A saudade, essa palavra portuguesa sem tradução, senti-a há muitos, muitos anos na cidade de Recife. Uma noite necessitei de ir a um apartamento no 10º piso. O elevador não funcionava e eu subi a pé, pela escada, sem luz. Num dos pisos eu ouvi, vindo do interior, a canção "Lisboa Antiga" por Amália Rodrigues. Felizmente tinha um lenço no bolso para limpar as lágrimas!...

Anónimo disse...

E não são pretos, e as habilitações que trazem permite-lhes apoiar os filhos na escola e dar o salto para funções fora das limpezas e da construção civil, evitando o perpetuar do ciclo de miséria e as viagens de transportes entre as 06h-07h e as 21h-24h. Enfim, só vantagens.