sexta-feira, 14 de julho de 2017

Américo Amorim


No tempo que antecedeu o surgimento dos "capitães de abril", a imprensa costumava designar homens como Américo Amorim, que ontem morreu, como "capitães da indústria". Esses eram também os dias em que ao qualificativo de “capitalista” não eram dadas conotações ideológicas e em que o termo “empresário” era exclusivamente dedicado aos produtores do Parque Mayer e ofícios correlativos.

Amorim faz parte de uma nova geração de criadores de riqueza que o período pós-25 de abril trouxe à ribalta. Durante anos, os expoentes dessa geração tiveram de defrontar o preconceito social de representarem o "dinheiro novo", face ao "dinheiro velho" das famílias que, à sombra do condicionamento industrial, tinham prosperado durante a ditadura, ao lado ou em aliança com o capital financeiro que adubou o Estado Novo. Os factos, contudo, vieram a não dar lustro, por aí além, aos alegados brasões históricos.

O mundo começou por conhecer Américo Amorim a partir do seu notável império da cortiça. Mas essa foi apenas a base a partir da qual criou um conjunto heterogéneo de investimentos, numa multiplicidade de áreas que tiveram o sucesso como marca comum.

Falei poucas vezes com Américo Amorim. A primeira em Londres, há mais de um quarto de século, quando aceitou ser nosso convidado numa palestra. Recordo o seu entusiasmo sorridente, que se somava àquele sentido de "saber ver antes dos outros" que, com os anos, fui descobrindo ser a qualidade comum - e distintiva da vulgaridade dos empreendedores - a certas figuras do mundo empresarial privado. A última vez que conversámos foi há poucos anos, quando o vi envolvido, com empenho solidário, numa louvável e discreta iniciativa de generosidade social, a que fui convidado a dar uma modesta colaboração.

Dizer que, na economia portuguesa, fazem falta homens como Américo Amorim pode parecer um lugar comum. É para mim muito evidente que fazem falta, entre nós, muitos mais criadores de riqueza e de emprego, que Portugal necessita de um tecido empresarial com forte dimensão, para poder competir internacionalmente. As PME têm aí um papel insubstituível, nomeadamente na diversificação (produtiva e geográfica) da exportação, mas sem empresas grandes e sólidas, projetadas para o exterior, a economia portuguesa não passará nunca da cepa torta. Isto é, nunca sairemos do estatuto em que há muito permanecemos (e que sei não ser agradável recordar): ser o país mais pobre da Europa ocidental.

Nos dias de hoje, Américo Amorim era o homem mais rico desse país pobre - e imagino que deva ser esse o mote para alguns especuladores da palavra, que sabem ser essa a forma mais eficaz de alimentar a medíocre cultura de inveja dominante.

6 comentários:

Anónimo disse...

Sempre ouvi dizer que AA estava ligado ao PCP (sendo, mesmo, militante). Alguém confirma (ou desmente)?

Anónimo disse...

Ele são os traumas de uma época que vai ficar na História deste país, resultante da comvulsão entre aquilo a que se chamou o "dinheiro novo" e o "dinheiro velho" depois de 1975.

O dinheiro novo foi protegido pelo regime depois de terem sido obrigados a compreenderem que sem capital não havia país.
O dinheiro velho foi desprotegido ou até mesmo combatido pelo regime.

Enquanto os dinheiros em Portugal tiverem de ser protegidos pelos regimes, continuaremos a ser "pobrezinhos" e às vezes mal agradecidos.

António disse...

Mesmo aceitando o respeito civilizado e humano por quem deste mundo se vai, é estranho que, acerca de uma figura pública como a deste senhor, quase se não passe do panegírico e ninguém, ou quase, relembre a acusação nunca esclarecida, mas simplesmente prescrita, de fraude de meio milhão de contos na obtenção de fundos europeus.
O que esta omissão diz da opinião publicada portuguesa é extremamente significativo do estado a que a liberdade, o pluralismo e a isenção dos media chegou neste Portugal completamente Pafiado (no crucial domínio dos mesmo media

Joaquim de Freitas disse...

Américo Amorim é o perfeito exemplo do criador de trabalho e riqueza, como conheci muitos, nos anos 60, na região do Jura, onde um grupo de capitalistas dos verdadeiros iniciaram aquilo que um dia ia resultar na industria relojoeira francesa, da qual, LIPP é a marca mais conhecida. Industria que desbordou depois para a parte suíça ,do outro lado da fronteira, na região de Chaux de Fonds e Neufchâtel.

Nesta região, essencialmente agrícola, havia pouco pessoal adaptado ao trabalho de máquinas de precisão utilizadas nesta actividade. Pois bem, foram os investidores que criaram escolas de aprendizagem e foi assim que 75% dos milhares de trabalhadores da relojoaria francesa foram formados.

Muitas empresas foram assim criadas, com um toque social evidente pois que as mesmas empresas criaram na realidade escolas elementares e liceus técnicos e construíram zonas de habitação à volta das empresas. Um pouco como fez a família Michellin, em Clermont Ferrand.

Era o tempo do capitalismo humano, criador de trabalho e riqueza. Mas hoje, o capital selvagem interessa-lhe os ratios de rendimento a dois dígitos, e não é com esta missão altamente civilizacional como a do Américo Amorim e dos relojoeiros franceses que se obtêm esses ratios…
O mundo da finança é irracional, cúpido e violento. Os homens não lhes interessa.

Anónimo disse...

A intervenção do Freitas responde à pergunta do anónimo. Se o Freitas defende este capitalista...

Joaquim de Freitas disse...

O anónimo « habitual » deste blogue, « destilou » mais uma achega ao Freitas, porque este defende a memória de Américo Amorim, como “capitalista” criador de empresas e riqueza. Não conheci pessoalmente este industrial, mas li bastante sobre o seu percurso, porque tenho uma certa admiração por homens desta qualidade.

Este anónimo pretende que respondi à pergunta doutro anónimo, talvez o do primeiro comentário, que pergunta se Américo Amorim era comunista…Curioso, que cada vez que um empresário pratica uma politica social mais avançada, num contexto capitalista, é “forçosamente” comunista…

Américo Amorim interessa-me desde há muito, porque a sua trajectória e capacidade de criação era muito parecida com aquela de alguém que esteve para ser meu “patrão” no início da minha carreira comercial, quando trabalhava numa filial duma grande empresa francesa, a “Société de Saint Gobain – Pont-à-Mousson” (donos da Covina, em Portugal), “abalroada” por uma OPA dum homem do género de Amorim, que se chamava Antoine Riboud, patrão da BSN , na época concorrente de Saint Gobain no vidro, mas conhecido sobretudo pelos seus produtos alimentares, entre os quais DANONE, a maior firma mundial nos lacticínios e na agro alimentar.

Escrevi: “esteve para ser”, mas não foi, porque a OPA falhou e Riboud não apanhou a Saint Gobain.
O seu sucessor, Franck Riboud também foi catalogado como comunista, porque no seu império de dezenas de milhares de trabalhadores, foi o primeiro a aplicar o “sistema de participação” ou “interesse nos benefícios” dos trabalhadores e reduziu o tempo de trabalho em 1980. (Sistema que apliquei um dia numa filial que dirigi).
O tempo de trabalho passou para menos de 34 horas por semana, e em seguida foi “Kronenbourg” e “Gervais Danone” de passar às 35 horas. Tudo negociado com os sindicatos, claro. 100 000 asalariados.

Esta politica é considerada como um acto fundador da empresa e inspirou numerosas acções de Danone em matéria de desenvolvimento humano.
Em 2007, Danone assinou a Convenção Mundial sobre a Diversidade. E quatro anos mais tarde, o 9° acordo-quadro mundial foi assinado entre Danone e a UITA, sobre o diálogo social e as condições de trabalho, particularmente sobre a saúde, a segurança no trabalho e o stress.

Foi o primeiro a considerar as consequências humanas aquando das grandes mudanças de organização e o melhoramento do bem-estar dos assalariados.

Foi defensor do duplo projecto económico e social, permitindo a auto avaliação de todas as filiais do grupo afim de se fixar objectivos concretos para articular resultados económicos e sociais.

Danone, sob a impulsão deste “comunista”, encontra-se no terceiro lugar da classificação do Observatório das Multinacionais de Human Rights Watch sobre as empresas francesas mais desiguais (ratio entre o salário do dirigente e o salário dos trabalhadores), baseado nos números de 2013.

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Capitalisation
45,75 milliards € (15 août 2016)
Chiffre d’affaires
21,94 milliards d'euros (2016) 3

Résultat net
(part du groupe) 1,720 milliard € (2016)


Capitalista? Certamente, mas com uma política social legada pelo fundador, que cria no valor intrínseco do Homem. Comunista? A utopia não faz parte da mentalidade dos grandes criadores de trabalho, mas não pode haver riqueza sem a participação de todos os actores duma empresa.

Entre Amorim e BSN-Danone existe talvez alguma semelhança. Pelo menos na capacidade de criação dos fundadores. E na paixão do trabalho.