quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Artistas

A enquadrar aquele museu num certo país europeu, situado fora da área urbana, havia um magnífico espaço verde. Sobre ele, espalhavam-se vários objetos artísticos, da mais diversa natureza. O museu, por essa altura, albergava, para além da sua coleção permanente, uma muito rara exposição de um conhecido pintor clássico.

Eu e um outro colega havíamos convencido uma personalidade com quem viajávamos da importância de não perdermos a oportunidade de ver reunido o essencial da obra desse grande artista da segunda metade do século XIX. Louvando embora a ideia do "détour" que fazíamos, de carro, para visitar a exposição, a figura em causa tinha-nos explicado, ao longo do trejeto, que era muito mais dada à apreciação da arte contemporânea, aos novos modelos criativos, das instalações aos trabalhos em vídeo. Às nossas dúvidas e à confissão da dificuldade de, por vezes, sermos sensíveis a algumas dessas ousadas expressões artísticas, essa pessoa contrapunha o seu pensamento cheio de contemporaneidade, com um intenso e esmagante "name-dropping" de criadores. Ao ouvi-la, verificámos que estávamos perante assinalável especialista.

E caminhavamos já para o museu, idos do parque de estacionamento, comentando à distância uma óbvia escultura de Moore, quando eu fiz notar:

- Conhecem os trabalhos de Rooney Kindley? É uma canadiano que está a ter imenso sucesso. É pouco conhecido na Europa, embora já tenha coisas no MoMa. Aquela peça, ali adiante, parece-me dele, disse eu apontando para um modelo de contentor pintado num forte azul, pousado sobre uma plataforma.

- Nunca tinha ouvido falar nele, disse a nossa personalidade. Nas vanguardas alemãs, que conheço melhor, há muito quem se dedique à criação deste género de objetos, como reproduções criativas de elementos extraídos do quotidiano, trabalhando-os na cor e nas vertentes de espaço. Este, aliás, parece-me bastante interessante, pela ligação do equilíbrio volumétrico e dos tons impositivos, que, no seu conjunto, provocam um contraste curioso com a paisagem. Por isso, necessitam, como aqui se consegue, de ter um cenário bastante aberto para a obra poder "respirar", permitindo distâncias para múltiplos ângulos de visualização. Como é que você disse que se chama o artista?

Fiz um sorriso irónico e esclareci:

- Esqueça! É apenas um contentor. Inventei o resto...

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Geografias

Na passada semana, o "Libération" trazia um longo artigo sob o título "Angola, quartier d'esclaves", com fotografias antigas, a preto e branco. Preparava-me para ler mais uma catilinária sobre a política colonial portuguesa quando, pelo texto do que veio a revelar-se um interessante artigo, fiquei informado de que, no fim do século XIX, terá sido criada, no Estado americano da Louisiana, aquela que foi considerada, por muitas décadas, "a pior prisão da América". Teve o nome de "Angola" por ser esse o nome que o anterior proprietário do terreno teria dado ao local, pelo facto dos escravos que aí tinha serem provenientes daquela antiga colónia portuguesa (o que, historicamente, parece um pouco estranho, convenhamos). "Angola" foi uma pentenciária bárbara, onde morreram violentamente muitos condenados, sujeitos a incontáveis violências. E por lá havia um cadeira elétrica. Dois jornalistas, nos anos 30, revelaram que, à época, aquele era "o lugar do mundo que mais se aproximava da escravatura". A prisão "Angola" ainda existe, nos dias de hoje, embora com outras condições.

Num registo bem mais pacato, mas que também se liga a nós, não quero deixar de assinalar que, num interessante livro, acabado de sair, que compila documentos essenciais para a compreensão da relação franco-alemã na altura da reunificação ("La diplomatie française face à l'unification allemande"), vim ontem a deparar com o curioso nome do principal especialista em assuntos alemães do Comité Central do então quase moribundo PCUS. Chamava-se Portugalov. Fui tentar perceber de onde poderia o homem ter tirado o nome. Uma fonte aponta para os Portugalov serem descendentes de judeus expulsos de Portugal no final do século  XV. Esta explicação pode ser lida aqui.

A imagem que ilustra este post, para muito leitores, provavelmente nada terá a ver com ele. O que, se calhar, é verdade. É apenas uma fotografia feita, há dias, em Lisboa (onde?), por uma amiga. E como gosto delas (da amiga e da fotografia) decidi publicá-la. Liberalidades a que se pode dar quem gere um blogue sem agenda...

Notícia

A agência de notação "Fitch" acaba de divulgar uma análise da zona euro na qual conclui que Portugal deve ter condições para evitar uma reestruturação da sua dívida.

Seria longo estar a elaborar sobre isto, mas alguns anos de vida internacional ensinaram-me que, se há algo de verdadeiramente decisivo no saldo final do imenso esforço financeiro que Portugal está a fazer, essa é a possibilidade de escapar a uma reestruturação da sua dívida. Assim outros não criem condições negativas externas que nos obriguem a enveredar por esse caminho.

Por isso, esta notícia da "Fitch", a confirmar-se, como se espera, já é uma das melhores do ano de 2011.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Clubes

Há dias, um comentador cuja identidade deteto pelo estilo, recordava, por aqui, a famosa, e deliciosa, frase de Grouxo Marx: "Eu nunca aceitaria entrar para um clube que me aceitasse como sócio".

Não sou muito dado a fazer parte de clubes. Em Londres, fui sazonalmente membro do "Travellers" (não tinha a exclusividade do "White's" ou do "Brooks's", mas era menos "fácil" o que o "RAC"), um "gentlemen's club" em que se almoçava a bom preço e onde, regressado de "diligências" no Foreign Office, se ia por um chá com scones, na sala da foto, ao final da tarde, servido pela loura Miss Melanie, que já sabia de cor os meus gostos. Aqui em Paris, tenho resistido, com denodo, a insistentes convites para fazer parte de algumas dessas estimáveis agremiações, quase sempre com espaços bem agradáveis, mas onde sei, de certeza plena, que raramente por lá poria os pés, por óbvia falta de tempo.

Por muitos anos, em Lisboa, recusei a ideia de entrar para qualquer clube. Sempre achei bem simpático o "Grémio Literário" mas, de há muito, tinha concluído que não tinha vida para o frequentar com assiduidade e que, para almoçar, me agradava itinerar por restaurantes.

Porém, há já bastantes anos, deu-me para aceitar a sugestão, feita por colegas da "carreira", que se ofereciam para me proporem para membro de um certo clube. Era um cenáculo de cariz conservador, num lugar central, sem grandes luxos, onde se podia ler a imprensa, almoçar e conversar serenamente com amigos. Achei graça à ideia, embora eu sempre duvidasse da possibilidade de vir aproveitar muito essas amenidades. Mas, atentas outras razões que não interessa aqui registar, decidi fazer uma derrogação à minha obstinação. Disse que sim e fiquei à espera.

Os anos foram passando e nunca mais tinha notícias da admissão no tal clube. Como vivia no estrangeiro, isso era-me indiferente. Mas, confesso, já andava curioso em conhecer as razões por detrás desse facto. Ter-se-iam esquecido? Foi então que alguém, discretamente, me revelou que era sabido que o meu nome era regularmente vetado, em reuniões de direção, por uma determinada figura. Ao que se dizia, por motivações políticas. Achei imensa graça.

Até que um dia, bem mais de uma década depois, aleluia!, recebi uma carta a anunciar a minha admissão. Foi então que tive a tentação de usar, em resposta ao convite, a supracitada frase. Mas contive-me nessa minha reação "marxista". E lá entrei, com imenso gosto, para sócio dessa interessante e estimável instituição, por muitos anos alimentada pela nomenclatura do Estado Novo. Pelos vistos, mesmo muito depois dele ter acabado... E por lá passo, às vezes, embora não tantas como gostaria.

Em tempo: Originalmente, esta era a exigência para fazer parte do "Travellers": "no person be considered eligible to the Travellers' Club who shall not have travelled out of the British islands to a distance of at least 500 miles from London in a direct line". Quanto ao RAC, não resisto a transcrever o que alguém escreveu:"it has a reputation for being less class-conscious than many of the other clubs". 

Este blogue

Esperava não ter de escrever o que se segue.

Tenho vindo a verificar, nos últimos tempos, que alguns comentários que são enviados para posts deste blogue (alguns dos quais não foram publicados, outros que publiquei) tendem a resvalar para o terreno de uma polémica menos salutar, com o aparecimento de picardias pessoais entre os comentadores, algumas vezes sob a capa de confrontação de estilos ou personalidades, outras em polarizações ideológicas, às vezes em poses doutorais, noutras com "criatividades" inadequadas.

Sei que essa é a cultura de certa blogosfera portuguesa mas, como dizia Régio, eu "não vou por aí". Este blogue quer-se uma ilha de serenidade, onde se pretende que a atualidade, as ideias ou a memória sejam tratadas sempre de uma forma bem disposta, positiva e otimista, tentando fazê-lo com bom senso e procurando sempre o bom gosto, com humor e ironia qb, sem ofender nem magoar ninguém, igualmente sem objetivos proselitistas ou agendas escondidas. Quem por aqui quiser continuar a passar, respeitando esse registo, será sempre muito bem vindo. 

Por isso, e em particular a partir de agora, os que entenderem ir por esses outros caminhos não se devem admirar de não verem publicados os seus comentários.

Regresso

Este é um tempo de regresso, em que muitos portugueses, nomeadamente os residentes em França, voltam das suas férias. Para aqueles que escolhem a estrada, esperamos que, ao contrário de outros anos, a prudência e uma condução sábia evitem a ocorrência de acidentes, tanto mais que o clima não tem ajudado muito.

É justo, nesta ocasião, sublinhar a realização, uma vez mais, pela associação de jovens luso-descendentes "Cap Magellan", de um programa de prevenção rodoviária, que teve como objetivo alertar os portugueses que se deslocaram ao país para as medidas de precaução que devem ser tomadas nas viagens. 

A organização, liderada pelo eleito de Paris Hermano Sanches Ruivo, edita também, com regularidade, a excelente revista "Cap Mag". Aqui fica a capa do seu último número.

domingo, 28 de agosto de 2011

LinkedIn

Convenceram-me a fazer parte da rede profissional LinkedIn. Logo a mim, que não uso o Twitter nem ando (pelo menos por vontade própria) pelo Facebook...

Tudo bem! Mas acho que só devo aceitar fazer parte da "rede" de quem, efetivamente, eu conheça bem pessoalmente, por muito respeito que me mereçam as restantes pessoas que pedem a minha adesão. É esse o critério que vou seguir, a partir de agora. OK? Não levam a mal?

Ricos

Um pouco por todo o lado, a crise fez renascer a questão da tributação dos "ricos". Em França, o governo, desde há uns meses, decidiu acabar com o chamado "bouclier fiscal", uma medida introduzida no início do mandato do presidente Sarkozy, que previa que ninguém podia pagar em impostos mais de 50% do seu rendimento, com vista a tentar fixar as fortunas no país. Agora, no quadro de um pacote de austeridade, foi criado um novo imposto, com prazo de aplicação limitado, para os grandes rendimentos. Ou é impressão minha ou a medida acaba por ter mais de simbólico - num momento em que às classes médias é pedido um esforço acrescido - do que de rentável para os cofres públicos.

No nosso país, vejo que o debate também está aberto. Modestamente, como cidadão comum que sabe tanto disto "como de um lagar de azeite", e com a maior sinceridade, interrogo-me sobre o que, a prazo, traria mais vantagens para o erário: procurar tributar de forma acentuada os rendimentos desses mais afortunados ou, em alternativa, garantir-lhes exonerações fiscais por cada posto de trabalho permanente que, através de investimentos feitos (sem a menor comparticipação do Estado, nem qualquer ajuda comunitária), eles conseguissem criar? Os ricos que paguem a crise? Claro, criando empregos. Como alguém dizia: "é fazer as contas..."

Chegadas e partidas

Fala-se já por aí da data de chegada a Portugal dos novos iPhone e iPad.

Em matéria de curiosidade quanto a datas, eu sou bem mais modesto: só gostava de saber quando é que o FMI sai de Portugal.

Essa é a única data que, nos dias que correm, é importante para todos nós. E que depende, essencialmente, de nós mesmos.

sábado, 27 de agosto de 2011

Padre David

Há dias, num telejornal noturno, foi entrevistada uma certa figura. E logo me veio à memória uma história passada com ela.

Algures nos anos 80, eu havia sido encarregado, em funções que então desempenhava, de receber essa pessoa. Vinha, muito bem recomendada, colocar-me um problema "sério". Ele e outros empresários tinham iniciado a construção de um lar para estudantes oriundos de certos países estangeiros, os quais, por perderem frequentemente as bolsas de estudo oficiais, por falta de aproveitamento, necessitavam de garantir alojamento para prolongarem a sua estada no nosso país. Os motivos desses empreendedores estavam longe de ser apenas altruístas: todos os estudantes que pretendiam beneficiar eram familiares de responsáveis, políticos e administrativos, desses países, os quais tinham direta influência na concretização de negócios com as empresas dos amáveis empresários lusitanos. Estava-se a ver o "filme"...

À partida, a questão parecia-me cristalina. Cada um procede como quer e pode, financia quem lhe interessa. Só não percebia o que é que o MNE tinha a ver com isso. Mas o meu interlocutor não tardou a ir direto ao que vinha: os empresários achavam que já tinham feito a sua parte, lançando as bases para o tal empreendimento, pelo que "cabia agora ao Estado" entrar com a restante verba necessária, que deveria representar cerca de 75% do custo total, o que, recordo, era um valor bastante elevado.

Expliquei ao senhor - que me pareceu ser um devotado cultor do lema "menos Estado, melhor Estado e o que dele sobrar fica para nós" - que as verbas para finalidades similares já estavam afetadas e que, em especial, o caso que apresentava não se enquadrava minimamente nas prioridades de financiamento que tínhamos definido. O nosso objetivo era concentrar a ajudas nos estudantes com aproveitamento, não nos "calões" de boas famílias. Pelo que a nossa resposta tinha de ser, muito simplesmente, negativa.

O cavalheiro abespinhou-se. Os seus contactos anteriores tê-lo-iam feito presumir um resultado diferente para a diligência. E logo adiantou que, a confirmar-se uma resposta negativa da nossa parte, se veriam "obrigados" a ir para a imprensa, denunciando o "desinteresse" das entidades oficiais do setor. 

Aí, "passei-me", e disse-lhe mais: que não tinha gostado nada da forma pressionante como a questão me fora colocada, e que, desde logo lhe podia assegurar, o Estado não cederia àquilo que era claramente uma espécie de chantagem. Atenta a gravidade da "ameaça" mediática que fizera, ia transmitir superiormente, "para os devidos efeitos", o respetivo teor, pormenorizando no texto que ia elaborar, as reais finalidades do projeto e detalhando os interesses que estavam por detrás dele. E adiantei: "Sabe?, no mau sentido, o senhor fez-me recordar a história do padre David". O homem, que já estava furioso, ficou também perplexo.

E contei-lhe que, nos meus tempos de infância, recebiam-se, em minha casa, umas cartas angustiadas, tipo circular, assinadas pelo padre David, de Ruílhe e Aveleda, localidades perto de Braga. Invariavelmente, o sacerdote explicava que tinha iniciado a construção de casas para famílias pobres, que já tinha as fundações, mas que precisava de dinheiro para todo o resto da construção. Até aí tudo bem, porque era obra altamente meritória. Só que, no arrazoado argumentativo, o padre David adiantava que, se não contribuíssemos, o projeto não avançaria, pelo que a responsabilidade de um eventual insucesso ficava exclusivamente nas nossas mãos. Eu era criança e esta pressão pouco subliminar, que vinha embrulhada numa linguagem religiosa que prenunciava retaliações divinas para quem se mostrasse relutante a cooperar, impressionou-me muito. E sempre me interroguei por que diabo havíamos nós de ficar com o odioso da obra incompleta, só porque o padre David haviam colocado o carro à frente dos bois. Com as melhores intenções do mundo, o qual, como é sabido, está cheio delas.

O nosso homem - em lugar de se sentir elogiado com a equiparação ao generoso padre... - ficou furioso, disse que se ia queixar de mim, saindo pela porta fora. Se o fez ou não, não sei. Nunca ninguém me disse nada, tendo eu cumprido a promessa de relatar, por escrito e com gozo, o episódio. Desde então, nunca mais o encontrei. Terão feito a obra?

A Líbia vista de outro lado

Há textos que ficam para a história (pequena ou grande, cada um que escolha) do nosso jornalismo. Hoje chegou-me um deles. É uma interpretação do que se passa na Líbia, sob uma perspetiva e um estilo lexical que eu pensava já arquivados nos escaparates da memória. Mas não, pelos vistos. 

Duas notas neste relato: uma curiosa, outra irónica. A referência aos "supostos criminosos de guerra da ex-Jugoslávia" e o facto de uma das fontes ser, assumidamente, o "The Economist". Não percam, a sério. Aqui.

Verão em Paris

Hoje, o "Le Parisien" titula "On veut le soleil!". Lá fora, à parte umas nuvens, o gestor climático supremo parece fazer-lhe a vontade. Com a casa deserta e Paris em férias, nada melhor que uma esplanada de uma "brasserie", com os jornais da manhã à mistura. E com estacionamento quase em frente (felicidade terrena que vai acabar, com o regresso dos parisienses). A meio do repasto, uma leve chuvada. Corrida geral para o interior. Amansadas as iras celestiais, passeio pelas montras até uma livraria. No final da compra, a vendedora oferece um elegante saco de pano, "cadeau" do dia. Chegado à rua, cai uma bátega imensa. Afinal, é melhor recolher a penates, para acabar um Céline, agora que os tempos recomendam a revisita a alguns "malditos". No carro (afinal estava longe, caramba!), molhado como um pinto, olho para o saco-prenda. Escrito por fora: "L'été est là". Pois, pois - como os brasileiros acham que os portugueses dizem...

PS - A imagem é um quadro de Gustave Caillebotte. A sua pintura impressionista lado a lado com fotos, também novecentistas, do seu irmão Martial estiveram, até 11 de julho, no museu Jacquemart-André, em Paris.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Porto

Só pude ver a primeira parte do Barcelona-Porto, para a supertaça europeia. E, no termo dela, pareceu-me injusto que o Porto estivesse a perder por um golo (um erro infantil, que não se pode ter a este nível). Afinal, a derrota acabou por ser por 2-0. Não tenho paciência para ver e ouvir os "experts" do costume, a "escalpelizar" o jogo, para deleite dos fanáticos. Como modesto observador destas coisas do futebol, achei, no período a que assisti, que Falcão fez muita falta no ataque, mas a sua venda ao Atlético de Madrid faz parte dessa estratégia regular de gestação de mais-valias que o Porto gere como nenhum outro clube português. Taticamente, foi claro que, muitas vezes, surgiu um "buraco" no lado direito da defesa portista, a qual, contudo, sabe jogar muito bem "em linha", o que fez o adversário cair em frequentes fora-de-jogo. Mas, para além de tudo isso, o Barcelona é uma equipa "messi...ânica", que acaba sempre por levar a água ao seu moínho. Pelo menos, até ver.

Diplomacia económica

Porque o tema da diplomacia económica está na ordem do dia, reproduzo aqui o texto do artigo "Diplomacia em tempo de crise" que publiquei, na edição de junho de 2011, da revista "Portugal Global", da AICEP:
 
"Não há muito tempo, um colega de um país do norte da Europa, cujo tecido económico foi bastante menos tocado pela crise internacional, perguntava-me de que modo a nossa diplomacia se estava a adaptar ao tempo de exigência acrescida que o país atravessava. A sua curiosidade tinha a ver, não apenas com a possibilidade de estarmos a encarar uma melhor adequação do nosso dispositivo diplomático aos objetivos mais imediatos da ação externa mas, igualmente, quanto ao modo como o nosso próprio trabalho teria, ou não, sofrido uma mutação qualitativa, em função de alguma reversão de hierarquia de prioridades.

A questão era interessante, embora a resposta não fosse óbvia. A diplomacia, como instrumento executivo da política externa, configura-se com a evolução dos tempos, por uma reformulação de prioridades, decorrente de novos objetivos. Embora deva ter-se sempre presente – e sei que isto pode parecer chocante para alguns cultores do imediatismo – que o papel dos diplomatas, na fixação da imagem do país, deve ir sempre um pouco para além das conjunturas. Essa é a razão pela qual a resposta às solicitações prementes do presente deve ser, no seio da nossa ação externa, modulada em permanência com a necessidade de garantir a preservação dos interesses permanentes do país, numa perspetiva de coerência de longo prazo. A nossa história não se improvisa.

Indo por partes, eu diria que, em face da presente crise, a diplomacia portuguesa tem, diante de si, três linhas de adaptação.

Em primeiro lugar, dentro do Ministério dos Negócios Estrangeiros não deixou de se considerar, desde o primeiro momento, a importância de repensar a rede diplomática existente, dando atenção particular a áreas geográficas que, não tendo sido privilegiadas nas opções de distribuição de recursos funcionais no passado, convinha que passassem a dispor de uma maior atenção no futuro. Quero com isto dizer que zonas como o norte de África, os países do Golfo e certos mercados asiáticos passaram a entrar na nossa ordem de prioridades, com vista a tentar conseguir novos pontos de apoio à atividade empresarial. Isso tornou-se particularmente importante face a mercados cuja evolução previsível de crescimento pudesse, simultaneamente, vir absorver produção nacional que tivesse menos atratividade para os nossos parceiros tradicionais (em especial, europeus) e garantir espaços sustentados de progressão futura de novas linhas de exportação. Assim foi feito e, estou certo, a prazo, os efeitos ir-se-ão sentir.

A segunda linha é de natureza formativa. Não vale a pena esconder que ainda não está ainda criada, no conjunto da nossa administração pública que opera na ordem externa, uma cultura de trabalho em comum. As razões são diversas, do corporativismo a alguma incompetência. Com felicidade, faço parte daquele grupo de diplomatas que sempre teve uma muito positiva experiência de trabalho conjunto com as estruturas de promoção económica externa (do FFE à AICEP, passando pelo ICEP/API). Por razões diversas, sei que essa experiência não é idêntica à de muitos colegas da diplomacia portuguesa. Não vale a pena estar a distribuir culpas, até pela certeza de que elas não estarão sempre do mesmo lado. Algo tem de mudar neste âmbito e, para isso, de há muito que só vislumbro uma solução, que sei difícil de pôr em prática, por escassez de recursos humanos: promover estágios profissionais cruzados, tanto nas instituições como nas empresas e nas associações empresariais, com suficiente duração para que tal possa ter reais efeitos, num esforço geral de aculturação.

Uma terceira vertente tem a ver com a mudança no paradigma da intervenção das nossas embaixadas, com impacto na informação que produzem. Imagino que a abordagem pública da questão, numa publicação desta natureza, possa escandalizar alguns. Mas julgo ter um mínimo de autoridade experiência para exprimir o que adiante vou dizer.

A diplomacia portuguesa não se deve esgotar no apoio à projeção económica externa do país – no comércio, na promoção do turismo ou na captação de IDE. A atenção à imagem do país na ordem internacional, o cultivo das redes de interesses políticos e culturais que o bilateralismo histórico justifica, a promoção da língua portuguesa e a proteção da diáspora são outros tantos pontos importantes a salvaguardar, como decisivo é sabermos potenciar o nosso valor acrescentado nacional de natureza política, como país construtor de pontes e entendimentos, à escala global. Como a eleição recente para o Conselho de Segurança da ONU o provou. Porque tudo isso, ao funcionar positivamente em favor da imagem do país, acaba por ajudar à criação de um ambiente favorável à promoção dos nossos interesses económicos – e dispensem-me de dar exemplos, por razões que julgo óbvias.

Porém, e como um dia já disse, com choque em alguns ouvidos mais sensíveis,  entendo que o MNE precisa de “menos Kosovo e mais batatas”, querendo com isto dizer que a diplomacia portuguesa tem de continuar o esforço já iniciado no sentido de infletir a sua focagem de prioridades, passando a perceber que a “política pura”, embora podendo dar-nos uma base interessante para um bilateralismo com vantagens, deve sempre apontar para uma visão objetiva dos interesses económicos que importa privilegiar, muito em especial numa situação de crise como a que vivemos.

Mas que fique clara uma coisa: não defendo que a política externa portuguesa seja refém da promoção económica externa, que se opte por uma “reapolitik” de interesses, como se o MNE devesse passar a ser, unicamente, uma espécie de agência de promoção externa de negócios. Não deve sê-lo exclusivamente, mas deve sê-lo também. E, para isto, não são precisos novos despachos ou decretos. Basta haver vontade.

Uma das razões pela qual não defendo uma dependência excessiva da nossa política externa face aos nossos interesses económicos tem a ver com o facto, que pude constatar ao longo das mais de três décadas que levo de ação diplomática, de que essa mesma atividade económica está longe de ter uma coerência mínima: os mercados flutuam, as prioridades variam, a oferta “tem dias”, os nossos empresários – desculpem lá! – têm estados de alma flutuantes. Se a ação externa do país ficasse vinculada, rigidamente, às opções do nosso comércio externo, Portugal teria a imagem de um catavento!

Por isso, recomendo apenas prudência, bom-senso e troca intensa de informação. À nossa diplomacia pode e deve ser pedido um grande empenhamento na promoção da atividade dos nossos agentes económicos. Os diplomatas portugueses devem ser mobilizados para servirem de eixo às campanhas de estímulo à atividade económica externa, as nossas embaixadas devem ser a “casa” dos empresários. Mas tudo isto tem de ter uma coerência global, uma hierarquia de prioridades bem estabelecida, uma dotação mínima de meios e uma proporção adequada de empenhamento. Uma missão diplomática ou consular não pode ser mobilizada apenas porque um empresário o solicita: essa solicitação tem de corresponder a uma razoável contrapartida previsível das vantagens potenciais decorrentes para o país.

É para essa avaliação que a diplomacia espera poder contar sempre com o insubstituível papel técnico da AICEP, como estrutura com capacidade de aferição daquilo que é, a cada momento, o interesse económico prioritário do país na ordem externa. É nesse diálogo, que não é complicado se dele forem excluídos os egos e os reflexos de casta, que deve assentar a parceria constante entre a atividade económica externa e diplomacia portuguesas."

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Regresso

É muito interessante voltar a mergulhar, de um dia para o outro, na realidade política de um país do qual estive afastado algumas semanas. É verdade que, entretanto, fui lendo as notícias que surgiam sobre a França, que já me atualizei com a produção informativa para Lisboa feita, nesse período, pelas minhas excelentes colaboradoras diplomáticas (curiosamente, todas senhoras). Mas nada é igual à presença no quotidiano. E que quotidiano, em escassos dias!

Desde logo, os desenvolvimentos na Líbia, onde a França teve (como já tive oportunidade de assinalar) um papel relevante, que será coroado com uma reunião em Paris, ao mais alto nível, logo no início de Setembro. Depois, os desenvolvimentos do caso Dominique Strauss-Kahn, que encheu debates e entreteve analistas prospetivos. Num terreno que lhe está (e continuará a estar) ligado, prossegue a "liça" no seio dos socialistas franceses, para escolha do "challenger" que disputará a corrida presidencial de 2012 com o atual presidente. E, para culminar estes dias franceses bem cheios, com vista a tentar acalmar os mercados e prevenir os humores de quem os antecipa, surgiu o anúncio pelo governo de um importante plano de austeridade, abrangendo o domínio fiscal e os cortes na máquina do Estado.

Paris-cidade ainda vive em ritmo de férias, com o próximo fim de semana a representar o grande regresso ao trabalho. Mas a "rentrée", essa, já aí está, em pleno!   

Imprensa

O tempo da comunicação social mudou muito. É meu hábito antigo guardar os jornais da manhã até ao final do dia, pela "angustiante" sensação de que neles ficou muito por ler e pela ilusória ideia de que acabarei por fazê-lo mais tarde. Só que, a essas horas, dou-me conta da quase total irrelevância daquilo que eram as "notícias" que esses jornais traziam, praticamente todas já ultrapassadas pela avalanche de noticiários televisivos e dos "sites", que entretanto ocorreu. Salvo para aquele universo de leitores que se contentam (e estão no seu direito) com as "pílulas" informativas a cuja fabricação alguma imprensa "apressada" hoje se dedica (pequenas notícias, com escassas centenas de carateres, que caricaturam os factos, como hoje são certos diários portugueses), tudo parece encaminhar-se para que os jornais, para terem algum sentido, se tornem, cada vez mais, veículos de análise e opinião e, cada vez menos,  portadores de notícias "requentadas". Lembro-me que, quando o "Público" foi criado, se dizia que a sua ambição era ser uma espécie de "Expresso" diário, o que corresponderia um pouco a esse conceito de uma imprensa que queria "ir um pouco mais longe", como à época já fazia o "Le Monde" ou o "El País". Na realidade, o "Público", que começou assim, acaba hoje por já não ser isso, embora, em Portugal, seja o jornal que mais próximo fica do modelo. Mas, num futuro próximo, será que as pessoas terão tempo para ler jornais diários meramente analíticos, com artigos cuja extensão e profundidade obrigam a uma disponibilidade pouco consentânea com o ritmo de vida de hoje? Por isso, com a proliferação dos Ipads, com os "alertas" nos telemóveis, os écrans dos computadores à nossa frente todo o dia, os "flashs" da rádio no carro e a omnipresença das televisões (com noticiários ou rodapés informativos) será que vai haver espaço para uma imprensa diária em papel? Começo a duvidar.

Em tempo: excluo a imprensa desportiva, cuja sobrevivência está garantida, "porque sim". Quando digo aos meus amigos estrangeiros que existem, em Portugal, três diários desportivos de dimensão nacional, eles começam a perceber melhor a questão do nosso défice...

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

O jantar

O convite para aquele jantar fora aceite com gosto. O casal brasileiro que recebia, que tinham conhecido num cocktail, revelara-se muito simpático, pelo que os embaixadores da Sildávia, que estavam em Brasília há escassos meses, acharam ser essa uma boa oportunidade para alargar o seu ainda escasso mundo de conhecimentos na sociedade brasiliense. E, assim, ataviado o embaixador com aquele "esporte fino" que, nos homens, dá saída regular aos blazers azul-escuro com botões dourados, lá avançaram para a festa.

Em Brasília, as ruas não têm nomes. A geografia da cidade é feita quase exclusivamente de letras e números. Na zona do Lago Sul, onde se situam as melhores residências, há uma espécie de pequenos bairros numerados, as "quadras", contados a partir da zona do aeroporto. Tais "quadras" são, por sua vez, subdivididas em ruas também numeradas, os "conjuntos", onde se situam as casas, igualmente identificadas por um número. Se se disser que as "quadras" podem ser "internas" ou "do lago" - QI ou QL -, dá ideia de uma grande confusão. Porém, depois de se perceber a lógica, tudo se torna bem mais simples do que em qualquer outra cidade...

O cartão do convite não permitia enganos. Estava escrito o endereço: "QI 5, conjunto 9, casa 23" (endereço fictício, claro). E lá partiram os embaixadores da Sildávia, com o próprio embaixador ao volante, porque o estacionamento costuma ser fácil e estariam mais à vontade sem motorista, para gozar até mais tarde a festa, nesse sábado de clima ameno. Chegados à "quadra", verificaram que o "conjunto" 9 era o último. Restava apenas procurar a casa.

- Olha, é aquela moradia com as lamparinas a marcar a entrada, disse o embaixador. Já lá está o carro do embaixador italiano, junto à porta.

Com o embrulhinho da caixa de chocolates para a anfitriã nas mãos da embaixatriz, entraram na casa. Era uma magnífica residência, com empregados vestidos a rigor, que logo lhes ofereceram uma taça de champanhe à entrada. Os embaixadores italianos acenaram e aproximaram-se, ficando, por instantes, à conversa.

- Onde estão os donos da casa?, indagou a embaixatriz sildava, desejosa de se ver livre da prenda e de saudar os anfitriões.

- Estão ali, junto da piscina, respondeu o diplomata italiano.

Os embaixadores sildavos encaminharam-se então para um pequeno grupo reunido mais adiante, em que detetaram algumas caras que recordavam (ou seria das páginas sociais da Jane Godoy ou do Gilberto Amaral?). Um casal, com ar de quem estava bem à-vontade na casa, aproximou-se, sorridente.

- Sejam bem vindos, retorquiu a senhora.

- Somos os embaixadores da Sildávia, murmurou o diplomata visitante, com um fácies por onde perpassou uma súbita perturbação.

- Ah! Não estávamos à espera, mas são muito bem-vindos, disse aquela que era, de facto, a anfitriã.

Como costumam dizer os brasileiros, nesse instante "caiu a ficha" aos embaixadores da Sildávia. Estavam na casa errada, na festa errada, com os anfitriões errados. O jantar para onde pretendiam ir era, afinal, numa casa exatamente no lado oposto do "conjunto". Com sorrisos e desculpas, no ambiente de amabilidade brasileira que torna tudo mais caloroso e fácil, lá se despediram dos colegas italianos (que, esses sim!, estavam na festa certa) e rumaram ao jantar onde já tardavam.

Um jantar onde, minutos depois, contaram esta sua saga, para imensa diversão de todos nós, que já lá estávamos, e, em especial, da Regina e do Edson, os verdadeiros anfitriões, que já estranhavam o atraso. (Para eles, aproveito para deixar um abraço saudoso).

Quanto aos embaixadores, não eram da Sildávia nem sequer da Bordúria, esses países tão ao gosto de Tim Tim, mas, neste tempo tenso de relações internacionais, sei lá se gostariam de ser identificados... E também não sei se, um dia, não terão acabado por ser convidados pelos anfitriões em casa de quem entraram por engano. Conhecendo a simpatia dos brasileiros e, em especial, dos brasilienses, é bem possível que sim!

Bartolomeu Cid dos Santos

Oitenta, Bartolomeu? Já? Como o tempo passa...Podes arrumar a t-shirt. O Obama já se encarregou disso.

Kadhafi

Nestes tempos de diabolização mediática do regime de Mouammar Kadhafi, vale a pena ter alguma memória.

A chegada ao poder de Kadhafi, em 1969, foi, à época, lida por muitos observadores como o percurso lógico de uma certa linha de evolução política no norte de África, que já tinha criado figuras como Nasser, Ben Bella e Boumédiène. Se bem que a bizarria do seu "Livro Verde" rapidamente tivesse dado um tom algo caricato à personagem e à sua doutrina, mais tarde agravado pela criação da fantasmática "Jamahyiria", a verdade é que, na altura, poucos verteram lágrimas pelo velho rei Idris, que Kadhafi tinha derrubado. E, em diversos e respeitáveis círculos, é sabido ter havido mesmo uma discreta alegria pela saída dos EUA da base que detinham na Líbia.

Mouammar Kadhafi, no seu longo reinado, teve vários tempos, aos olhos da comunidade internacional, desde um período inicial esperançoso, de pendor desenvolvimentista - em que enviou para o Reino Unido e EUA milhares de jovens, para formação técnica - até a uma época em que protegeu e fomentou abertamente o terrorismo internacional. Sob intensa pressão, viria a mudar um pouco de rumo e a ganhar alguma complacência de ocasião, ao tomar atitudes que ajudaram o mundo ocidental na luta contra o fundamentalismo islâmico e, muito em particular, contra a imigração descontrolada para a Europa. 

Mas Kadhafi era, de há muito, um sinistro ditador, pelo não foi surpresa para ninguém "descobri-lo" como tal. Como acontecia com Ben Ali ou Moubarak, diga-se. Tirou a vida a muitas pessoas e arruinou-a a muitas mais. As práticas do seu regime eram conhecidas, as organizações de direitos humanos denunciavam regularmente as suas ondas de repressão. Mas era, como outros, um ditador recebido por todos os grandes dignitários mundiais, por casa de quem passeava folcloricamente as suas tendas, que queriam o seu petróleo e procuravam vender-lhe os seus produtos. E que, entre si, disputavam as suas aquisições de armamento, que ele pagava, com o dinheiro de um país rico que a Líbia era. As mesmas armas que agora utilizou para reprimir selvaticamente o desejo do seu povo à liberdade. E que o fez cruzar uma "red line", a qual, no entanto, já não é tão imperativa para outros, protegidos que estão por diferentes teias estratégicas.

Em tempo: aproveito notar que, carregando no marcador lateral "Líbia", pode ser consultado o que por aqui já foi publicado sobre aquele país.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Blogagens

Não sou muito dado a visitar com regularidade outros blogues (lamento muito, mas é pura verdade!) e, quase sempre, sinto-me mais tentado a passear por aqueles onde se publicam coisas com que sei que não vou estar de acordo. Não se trata de masoquismo, é mera curiosidade de conhecer o que pensa quem sei, de ciência certa, que não pensa como eu. 

Num desses episódicos percursos, dei-me conta que, nos últimos dias, as coisas andam acesas entre escribas em sítios famosos na blogosfera política portuguesa, de opostas tendências. Ao que se nota, as teclas desembainharam-se e soltam-se mesmo alguns vernáculos. Nada de que se não estivesse à espera, nesta mudança de ciclo. Mas, francamente, nunca pensei que a agressividade chegasse onde já vai. No fim, cá por (duas ou três) coisas, creio que, entre mortos e feridos, alguém há-de escapar...

Líbia

Vale a pena recordar algumas coisas básicas.

Foi a repressão brutal levada a cabo pelas forças armadas líbias sobre setores civis que contestavam o regime, contagiados pelos ventos de liberdade que sopravam dos vizinhos egípcios e tunisinos, que conduziu à aprovação de uma resolução das Nações Unidas, a qual, por sua vez, legitimou uma intervenção limitada da NATO naquele país.

A França e o Reino Unido estiveram, desde o primeiro momento, na linha dianteira, quer da promoção daquela resolução, quer da estruturação da "coalition of the willing" que utilizou a estrutura da NATO para dar apoio aos rebeldes e limitar a capacidade de ação das forças de Kadhafi. Se esse apoio foi, ou não, bastante para além daquilo que o próprio mandato permitia é uma discussão que tem todo o sentido, até porque o que dela resultar não deixará de condicionar o futuro comportamento de outros atores internacionais, em situações similares.

Por isso, neste que é um momento de vitória da insurreição sobre um regime que utilizou as suas forças armadas para reprimir o seu povo, parece evidente que Paris e Londres devem merecer o reconhecimento explícito da comunidade democrática internacional, tanto mais que o seu extraordinário esforço militar foi feito num tempo difícil, em termos da mobilização de recursos orçamentais.

Dizer-se que a circunstância de não ter sido empreendida uma ação do mesmo género na Síria, onde a repressão foi tanto ou mais violenta, prova alguma duplicidade de algumas das potências ocidentais é um juízo razoável, só infirmado pela constatação de, no caso sírio, não havia a possibilidade de obter um mandato "onusino" de natureza similiar. Nesse debate, alguém poderia retorquir que, no caso do Kosovo, também não existia mandato e, no entanto, a ação não deixou de ter lugar. É verdade, mas os que consideram que, em algumas situações limite, há que avançar, mesmo sem legitimação formal, colocam-se facilmente ao lado de quantos acham que a ONU só serve quando dá jeito ao que pretendem. E perdem o direito a criticá-los.

Resta um último e não dispiciendo aspeto: o futuro. Foi aberta a "caixa de Pandora" e, agora, é necessário cuidar que os novos dirigentes de Tripoli tomam medidas imediatas para evitar massacres retaliatórios, eliminações sumárias de opositores e um ambiente de terror perante setores populacionais que, muito provavelmente, estiveram com Khadafi porque não tinham outra opção, como imensas vezes acontece em situações similares. E que ninguém venha com o argumento de, na confusão da vitória, não é possível conter a raiva de guerrilheiros pouco organizados e espontaneístas. Este será o primeiro teste à qualidade, também ética, da nova liderança, que concitou a esperança de quem a apoiou.

A legítimidade de um julgamento pelo Tribunal Penal Internacional dos antigos responsáveis líbios ficaria severamente minada se o mundo ocidental, que em especial apoiou esta insurreição, não fizesse perceber urgentemente ao Conselho Nacional de Transição que esse mesmo apoio foi no sentido, claramente condicional, da observância pela Líbia do estatuto de um Estado democrático de Direito, com estrito e antecipado respeito pelo espírito das convenções internacionais atinentes ao caso - que quem lhes deu força, política e militar, sempre teve presente. Longe deve ir o tempo em que alguns países ocidentais, nomeadamente em África, ajudavam a derrubar ditadores para os fazerem ou deixarem suceder por regimes autoritários de outra natureza.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Arbitragem

"A star is born", ainda que por pouco tempo. Chama-se Fernando Idalécio Martins, é árbitro dos escalões inferiores de Aveiro e provou que, com modéstia e bom-senso, se pode exercer uma eficaz arbitragem, como ontem fez no Beira-Mar - Sporting, superando uma crise criada pelas vedetas do apito do nosso futebol.

Devo dizer que esta polémica me parece saudável. A arbitragem não é um tema sacrossanto e os erros e desvios humanos que entendermos relevantes devem ser denunciados, porque falseiam os resultados dos jogos. O início de uma nova época configura exatamente o tempo certo para se apontarem publicamente, e com destaque, as falhas de isenção que se considerarem assinaláveis, para que algumas coisas se clarifiquem um pouco mais. Com efeito, o passado demonstra que alguns são, por sistema, mais prejudicados do que outros ou, se lermos as coisas de outra forma, que alguns são quase sempre mais protegidos. O que ocorreu na época futebolística passada deve servir-nos de alerta para o futuro, pelo que me parecem sensatas e razoáveis as denúncias de que, no campo da arbitragem portuguesa, "o rei vai nu".

Compreendo que o facto de ser sportinguista torne esta minha observação um tanto "biaisée", mas é isto que penso e, por isso, é isto que aqui digo.

Pousadas

Uma das poucas coisas que fragiliza a minha animosidade irredutível face ao Estado Novo são as nossas pousadas*. Foram criadas em 1942, por essa figura muito interessante da cultura portuguesa que se chamou António Ferro e representaram uma tentativa de dar realce às diferentes regiões do país, à diversidade da sua gastronomia e dos seus costumes, incentivando o turismo estrangeiro e um turismo interno mais exigente. Em 1945, tinham já sido estabelecidas oito pousadas. Vale a pena dizer que os "paradores" espanhóis, instituídos nos anos 20, foram os inspiradores das nossas pousadas, mas a expansão destas foi mais rápida e sustentada que o do (excelente, aliás) modelo vizinho, que só viria verdadeiramente a desenvolver-se a partir dos anos 70.

Ferro deixou bem claro o que pretendia das pousadas, ao afirmar, na inauguração da primeira daquelas unidades, em Elvas: "o luxo e a ostentação, muitas vezes sem conforto nem bom gosto, não constituem, obrigatoriamente, a matéria-prima do turismo", pelo que as pousadas deveriam ser "pequenos hotéis que não se parecessem com hotéis". Embora isto possa chocar os espíritos de hoje, nada melhor para qualificar o seu objetivo do que esta sua frase: "se o hóspede, ao entrar numa destas Pousadas, tiver a impressão de que não entrou num estabelecimento hoteleiro onde passará a ser conhecido pelo número do seu quarto, mas na sua própria casa de campo, onde o aguardam os criados da sua lavoura, teremos obtido o desejávamos". E também: "o conforto rústico, bom-gosto fácil no arranjo das coisas e também no paladar, simplicidade amável, eis as grandes linhas do programa das nossas Pousadas", que se pretendiam "pequenos conservatórios da cozinha portuguesa". Os tempos mudaram muito e as pousadas também.

Inicialmente, as pousadas eram relativamente baratas e - imagine-se! - tinham um limite imperativo de três dias de ocupação por utilizador. A forma da sua gestão teve um percurso que partiu da plena dependência estatal até ao modelo atual, em que o grupo hoteleiro Pestana detém uma posição maioritária, numa forma de semi-privatização, que não deixou de ter consequências sensíveis na oferta atual de serviço e qualidade das Pousadas, sujeitas a um padrão de exploração onde praticamente desapareceram as preocupações originárias de serviço público. Algumas unidades vivem num regime de "franchising" que, igualmente, afeta fortemente a identidade do conceito.

Atualmente (2011) estão em funcionamento 40 pousadas **. Verifico que já dormi em 33 destas unidades hoteleiras mas, na realidade, já estive alojado em 48 pousadas... Como é isto possível? Porque, ao longo das últimas décadas, pelas minhas contas pessoais, desapareceram 17 pousadas (de que conheci 15). Recordo unidades que encerraram como pousadas, como as de Miranda do Douro (ia-se jantar à Balbina), de Póvoa das Quartas (ia-se ao Camelo, em Seia, ou ao Júlio, em Gouveia), de Castelo do Bode (ia-se, claro!, ao Chico Elias), de Serpa (jantava-se na Pousada mas, antes, ia-se beber a melhor imperial "do mundo" ao Lebrinha), de S. Brás de Alportel ou de Sousel, todas com panoramas magníficos. Mas, devo dizer, não verto lágrimas por pousadas desaparecidas como as de Monsanto, de Almeida, de Proença-a-Nova, da Quinta da Ortiga ou da Batalha. Apesar de tudo, confesso que tenho pena de já não existirem as unidades tão históricas como as de Santo António de Serém, de Santiago de Cacém, do Torrão ou de Vila Nova de Cerveira (onde se comia muito bem). Houve ainda uma pousada, em S. Martinho do Porto e uma unidade na Madeira, a pousada dos Vinháticos, não tendo conhecido ambas.

Durante alguns anos da minha vida, por razões diversas, tinha obrigatoriamente de trabalhar todos fins-de-semana. As pousadas eram o meu "pouso" preferido para isso. Nesse tempo, quando os preços eram outros, cheguei mesmo a passar férias em pousadas. Por isso, tenho sobre elas muitas e diversas experiências, que vão desde grandes exemplos de profissionalismo a monumentais descasos. Mas, apesar de algumas razões que possa ter em contrário, ainda hoje sou "addicted" das nossas pousadas e, sempre que posso, frequento-as.

* Uma nota curiosa. O conceito de "pousada", no Brasil, qualifica, em regra, estabelecimentos hoteleiros com um nível abaixo do das nossas pousadas. Assim, quando o grupo Pestana recuperou, em Salvador da Baía, o Hotel Convento do Carmo, que era, à  época, a mais bela unidade das "Pousadas de Portugal", não lhe essa designação.  

** Anoto aqui as primeiras Pousadas: Santa Luzia, Elvas (1942), São Gonçalo, Marão (1942), Santo António, Serém (1942), São Martinho, Alfeizerão (1943), São Braz, S. Braz de Alportel (1944), Santiago, Santiago do Cacém (1945), São Lourenço, Serra da Estrela (1948)

domingo, 21 de agosto de 2011

"Santirso"

Ontem, ao ver as peixeiras da ribeira de Viana do Castelo imitarem uma discussão, durante a "festa do traje" das festas da senhora da Agonia, lembrei-me do "Santirso".

O "Santirso" era o nome de um barco espanhol de transporte que, na minha infância, aportava com alguma regularidade à doca de Viana do Castelo, em frente à casa da minha avó. Isso nada teria de especial, num porto que, à época, era bastante movimentado, se não se desse o caso da presença desse barco estar associada, no imaginário das pessoas da pesca vianense, à chegada de mau tempo. Por isso, e porque a coincidência se repetia com demasiada frequência, era voz corrente que as mulheres da ribeira apupavam os marinheiros do "Santirso", que olhavam como responsáveis pelas condições climatéricas que não permitiam a saída da barra dos pescadores.

Nestas festas da senhora da Agonia, o "Santirso" não chegou e o tempo acabou por mostrar-se clemente, salvo na derradeira noite. Mas uma coisa é certa: há chegadas que dão azar e estragam o clima.

Em tempo: apanhei isto na internet sobre a "lenda" do "Santirso" 

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Feiras

Num debate na Assembleia da República, o líder do CDS/PP tinha feito uma crítica a alguns aspetos da presidência portuguesa da União Europeia que então decorria, nesse início do ano de 2000, em que eu tinha alguma responsabilidade na matéria. Não era nada de muito radical, mas apenas o tom habitual dos partidos de oposição, que sempre procuram certos "nichos" de divergência pontual, mesmo quando subscrevem, por razões de Estado, o essencial da ação do governo na área externa. Como era o caso.

Nesse seu discurso, a que o primeiro-ministro estava a dar resposta aos temas substantivos, o líder oposicionista tocara, em moldes que recordo críticos, a questão da distribuição geográfica das reuniões europeias que a presidência portuguesa estava a realizar pelo país, como era habitual nesses longínquos tempos em que os Estados membros ainda pesavam alguma coisa no exercício das presidências semestrais. Já não recordo bem, mas talvez porque Aveiro não estivesse nesse mapa...

Da bancada do governo, fiz então chegar, discretamente, àquele lider partidário uma pequena nota manuscrita, que dizia basicamente o seguinte: "Achei muito injusta a sua crítica ao mapa de reuniões comunitárias no território português. Com efeito, deve ter notado que a cimeira final da presidência portuguesa está marcada para uma determinada cidade, num gesto que pretende ir ao encontro daquilo que se sabe ser objeto de um carinho especial da sua parte. Não foi por acaso que escolhemos Santa Maria da ... Feira!".

Não deixarei de perguntar ao meu atual ministro se se lembra da gargalhada sonora que deu ao ler a minha nota, para imensa perplexidade de deputados de várias bancadas e dos meus colegas de governo.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Prestígio

A pequena história que anteontem contei, sobre um percalço familiar de um meu conterrâneo, suscitou algumas indignações femininas. Nada de que se não estivesse à espera!

Isto acicatou, devo dizer, o meu pendor para, neste tempo "light" estival, provocar o "politicamente correto" e trazer à memória uma outra historieta, de que há muito ouvi falar.

Tratava-se de um cavalheiro, bem apessoado, figura de elevado nível na administração pública de Vila Real, o qual, por razões funcionais, era obrigado a deslocar-se "lá baixo", a Lisboa, com alguma regularidade. Nesses tempos dos anos 60, essas viagens eram longas, obrigando a estadas de mais do que uma noite.

Um dia, uma amiga da mulher desse oficioso viajante perguntou-lhe:

- Ouve lá! Tu não achas que o teu marido, com todas essas viagens a Lisboa, não pode ser tentado a ter por lá algum "caso"?

A senhora, pessoa serena e muito educada, respondeu-lhe:

- Sabes?, se calhar tens razão. Mas se há coisa que eu não posso controlar é isso. Ele fica lá por Lisboa no Suíço-Atlântico e tudo pode acontecer. Mas, olha!, se alguma coisa ocorrer, ao menos tenho a esperança de que ele não faça "fracas figuras"...

Estou certo que mesmo as mais empedernidas feministas do meu "quadro" de comentadores não deixarão de achar tocante esta preocupação com o prestígio familiar.

"Las dos Españas"

Não, não me estou a referir àquelas que ontem se defrontaram e que foram tituladas por dois estrangeiros geniais: Messi e Cristiano Ronaldo.

As "duas Espanhas" de que quero aqui falar são as do poema de António Machado e que dão mostras de se manterem na profundidade da alma espanhola: a Espanha tradicionalista, católica, absolutizadora dos valores da ordem e a Espanha progressista, laica e disposta a forçar roturas de modernidade.

Os confrontos religiosos que ontem tiveram lugar em Madrid são um sinal pouco agradável de que sobrevivem, na sociedade vizinha, tensões radicais que, não obstante enquadradas por uma sólida democracia, testada por duras provas nas últimas décadas, se situam agora já fora do terreno das ideologias políticas e começam a ancorar no reino menos racional e muito mais emotivo das crenças. Esperemos que o bom senso prevaleça e que esta polarização, somada à crise económica e ao tempo eleitoral que aí virá, se resolva sem grandes feridas no tecido desse grande país que é a Espanha, cuja estabilidade faz mais parte da nossa do que alguns inocentes inúteis pensam.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Porto

A França continua liderar as compras mundiais de vinho do Porto, de acordo com as estatísticas mais recentes. 

Um dos "mitos" que ainda subsiste, ligado ao consumo de Porto, diz respeito ao Reino Unido, que, por muito tempo, foi o destino preferencial daquele produto. Ainda hoje, se perguntarmos à maioria dos portugueses qual o maior consumidor do vinho do Porto, a maioria indicará, seguramente, o mercado britânico. Ora países como a Holanda, ou o próprio mercado interno português, já hoje ultrapassam, em muito, o Reino Unido.

Em 2011/2012, em articulação com a AICEP e o Instituto dos Vinhos do Douro e Porto vamos tentar reforçar a promoção do vinho do Porto no mercado francês. Também no próximo ano, a Embaixada portuguesa em Paris vai acolher a atribuição do prémio ao melhor "sommelier" francês especializado em vinho do Porto.

O vinho do Porto, um produto de altíssima qualidade e prestígio, cuja comercialização sofre de alguns problemas, continua a ser uma das grandes imagens de marca de Portugal. E temos muito poucas.

Tecnologias

Aqui deixo uma breve historieta da minha terra, verídica, para elevar a boa disposição ao nível dos "spreads".

O homem tinha partido de regresso a casa, pela tardinha. A certa altura, foi seduzido por alguma "fruta" (o termo é de raiz futebolística nortenha, para quem não saiba) humana que se oferecia à beira da estrada. Parou, negociou e, antes do resto, telefonou à mulher, informando-a de que um compromisso de última hora o impedia de ir jantar. 

E lá foi, acompanhado, para a mata próxima. Horas depois, chegado a casa, foi recebido pela cara metade de caçadeira na mão. A tragédia foi evitada, a custo, por familiares. O que acontecera? O nosso homem esquecera-se de desligar o telemóvel, depois da chamada para a esposa, que assim teve o "privilégio" de ouvir o "relato" ao vivo do recreio do cônjuge.

Vi-o hoje, feliz da vida.   

terça-feira, 16 de agosto de 2011

"Eurobonds"

Leio hoje no título do "Público": "Eurobonds fora da agenda da cimeira entre Merkel e Sarkozy".

E recordo-me disto:

"O recurso ao endividamento comunitário, através de obrigações europeias (eurobonds), constituiria um sinal de empenhamento da União com soluções de natureza comunitária, num momento em que se verificam restrições de natureza orçamental para prosseguir, a nível nacional, acréscimos nos investimentos públicos, nomeadamente aqueles que eventuais choques assimétricos provocados pelos impactes diferenciados do euro no tecido económico e social da União vierem a justificar."

(in "Diplomacia Europeia - instituições, alargamento e o futuro da União", ed. Dom Quixote, Lisboa, 2002, pag 177)

Aqui deixo este extrato de um texto ("Uma Europa Solidária?") que escrevi, há mais de 12 anos, republicado em livro, em 2002.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Cosmopolitismo

Não é a primeira vez que, em alguns comentários a este blogue, recebo remoques pelo facto de utilizar palavras ou expressões estrangeiras, que vulgarmente identifico entre aspas. Devo dizer, desde já, que eu próprio me não sinto muito confortável com o recurso regular a esses termos. A realidade, porém, é que há determinados conceitos que me parecem tão bem sintetizados e tipificados em algumas línguas estrangeiras que reconheço que me dou frequentemente ao luxo de não ter de procurar, para eles, um equivalente em português. Aceito ser esta uma óbvia fragilidade, mas é também o preço de ter de optar por uma escrita rápida, imediata, que permite um ritmo diário de posts, sem grande burilamento ou beleza estilística.

Na vida diplomática, o recurso a expressões estrangeiras - principalmente inglesas, mas também francesas - faz parte do nosso dia-a-dia, o que, naturalmente, marca o discurso corrente e acaba por aparecer, de forma quase abusiva, em todas as apresentações que fazemos. Acredito que este meu "defeito" venha daí.

A este respeito, recordo-me de uma história, de que hoje não me orgulho muito, não tanto pelo facto em si, que até foi divertido, mas principalmente pela circunstância do meu interlocutor ter já, infelizmente, desaparecido.

A cena passou-se na comissão de Assuntos Europeus da Assembleia da República, creio que logo no final de 1995. Como responsável governamental pelo setor, eu estava a ser interpelado sobre dossiês que estavam em discussão em Bruxelas. Tinha feito uma intervenção inicial de, creio, cerca de meia-hora e ouvia as questões que, de seguida, me estavam a ser colocadas pelos deputados.

O deputado do PCP, Lino de Carvalho, para além das normais críticas oposicionistas à política do governo que eu ali simbolizava, disse algo parecido com isto: "O senhor secretário de Estado, nesta sua intervenção, mostrou alguns desagradáveis vícios de cosmopolitismo, recorrendo, com frequência, a expressões estrangeiras. Em poucos minutos, contei uma boa dezena delas, como "phasing-out", "leftovers", "acquis", "leverage" e outras do género. Eu sei que a profissão de V. Exa. conduz a um convívio intenso com o estrangeiro, mas devo dizer-lhe que acho lamentável estes excessos de cosmopolitismo. A meu ver, um representante governamental português tem a obrigação de vir para aqui falar exclusivamente a sua língua aos seus deputados".

Eu era um novato nas lides parlamentares e achei que, no contexto de um debate em "petit comité" (lá estou eu a usar expressões estrangeiras...), que decorria de forma solta e descontraída, me poderia permitir uma graçola política. Só que, como irão ver, o tiro saiu-me pela culatra.

Assim, interrompi o deputado, cuja intervenção ainda não tinha terminado e, pedindo autorização ao presidente da comissão, que creio que era o José Medeiros Ferreira, disse: "Eu quero pedir perdão ao senhor deputado pelo uso excessivo que fiz de expressões estrangeiras. Com efeito, reconheço que incorri num condenável vício de cosmopolitismo. E sei que isso toca fundo no património de memória do partido que V. Exa. aqui representa, o PCP. Com efeito, todos recordamos bem que, nos "processos de Moscovo", Estaline fez condenar à morte, por crimes de cosmopolitismo, muitas pessoas. Vou, assim, tentar conter-me, futuramente, na utilização de expressões estrangeiras".

O que eu fui dizer! Lino de Carvalho, com o ar grave que a sua barbicha leninista lhe conferia, sentiu-se ofendido com a minha intervenção, considerou-a "provocatória", "arrogante" e "insultuosa". E o agravamento do ambiente que o incidente projetou sobre a sessão, que até aí decorrera morna e sem polémicas, fez com que os sorrisos que a minha graçola inicialmente provocara se transformassem numa sólida, se bem que silenciosa, solidariedade parlamentar, em apoio à honra ofendida do colega deputado, como era patente na expressão facial coletiva à volta da mesa. Mesmo nos deputados que apoiavam o governo que eu ali representava denotei um visível incómodo com o insólito da situação criada.

Não me recordo como tudo acabou, mas tenho claro que falei, mais tarde, com Lino de Carvalho, junto de quem procurei justificar-me. A partir de então, e com o tempo, as nossas relações acabaram por normalizar-se e, nos anos que se seguiram, tive-o por um interlocutor muito sério e sabedor sobre questões de agricultura europeia. A sua morte deixou saudades no nosso parlamento e o nosso bate-boca fez-me aprender uma bela lição. 

domingo, 14 de agosto de 2011

Figuras

Sou dum tempo em que se "emigrava", cedo na vida, da província para Lisboa ou para o Porto, às vezes para estudar, muitas outras simplesmente para aproveitar a macrocefalia económica das grandes cidades.

Porque tínhamos saído adolescentes da terra de origem, era-nos necessário, nos tempos das visitas em férias, começar a adquirir localmente um estatuto de adultos, em cidades ou vilas que, à partida, nos não reconheciam como tal, porque, no imaginário local, não passávamos do "filho de" fulano.

Foi assim comigo em Vila Real e, anos mais tarde, estou certo que o mesmo aconteceu, por exemplo, ao dr. Pedro Passos Coelho, que, embora bastante mais novo, teve um circuito de vida comum a muitos vilarealenses.

Mais no caso da minha geração, durante esses regressos episódicos à cidade, pelas festas ou pelas férias, um dos ritos iniciáticos de reconhecimento desse "upgrading" passava pela partilha das mesas nos cafés mais tradicionais, com pessoas mais velhas - sempre homens, claro! Levavam-nos amigos que nos ajudavam a fazer essa transição e, a pouco e pouco, íamos tendo direito de assento nesses grupos de pessoas.

Alguns eram homens de personalidade marcante, verdadeiros "opinion-makers", quase sempre com ideias bem definidas, respeitados, por vezes temidos, acolitados por amigos que se apagavam sob o seu brilho e davam deixas para as suas "saídas". Muitos eram incontestáveis chefes de tertúlias, que contavam histórias deliciosas sobre gente local desaparecida.

(Não resisto a contar uma das mais clássicas, a imorredoura frase do Dr. Sampaio e Melo, o qual, do alto da sua bigodaça e voz forte, uma tarde dos anos 50 anunciou, perante um dúzia de amigos: "Tenho a comunicar-vos que acabo de dormir com a mulher de um dos presentes!". O embaraçoso silêncio que se abateu sobre o grupo, por penosos segundos, só se diluiu com o esclarecimento subsequente: "Com a minha, claro!")

Nesses encontros de gerações, que, com o decorrer dos anos, atenuam décadas de diferenças de idade e colocam todos numa espécie de camaradagem atemporal, os mais novos iam criando lentamente o seu estatuto, sendo-lhes dada uma atenção progressiva, à medida da própria maturidade que iam demonstrando. Mas o papel das grandes figuras, desses marcos humanos que fazem a identidade das pequenas cidades, esse mantinha-se intocado e intocável. Eram advogados, médicos, engenheiros ou empresários que, com o prestígio e os cabedais ganhos, a que muitas vezes se somava um tecido familiar conhecido e reconhecido, se haviam alcandorado ao pequeno grupo de "grandes senhores" locais - e uso a expressão com todo o sincero respeito que o conceito me merece.

Uma tarde, no final dos anos 60, numa dessas mesas a que eu tivera acesso numas férias da universidade, a discussão derivou para a caça e para a pesca. Como estes eram temas que nada me diziam, fiquei calado, a ouvir os "experts". A certo passo, vieram à baila as imperativas alvoradas a que aquelas atividades obrigam. Nesse particular, o meu silêncio já traduzia algo de embaraçado: nessas férias escolares, os meus pequenos almoços raramente tinham lugar antes do meio-dia, na obediência ao sacrossanto princípio de que "se esta vida são dois dias, há que aproveitar bem as noites...".

Liderava tal conversa o dr. Manuel Vaz de Carvalho.

Tratava-se de um advogado literato, poeta de mérito, muito culto, de qualidade intelectual reconhecida desde os tempos de Coimbra, figura prestigiada da barra da Justiça, cujo verbo argumentatório se dizia ser temido por magistrados e colegas, muito para além dos limites da comarca. Vivia numa moradia na Timpeira, então um arrabalde da cidade, com um rancho de filhos, educados com rigor, onde a minha e as subsequentes gerações ancoraram sólidas amizades. Com uns cabelos revoltos, tinha voz forte e um fácies grave, que escondia uma finíssima ironia e uma imensa capacidade de ser amigo do seu amigo.

O dr. Vaz de Carvalho, num dos momentos da conversa, sentenciou, para a mesa: "Eu nunca percebi como pode haver por aí uns maduros que não sabem apreciar um nascer-do-sol, a clareza de uma manhã de primavera na saída para uma pescaria, o fresco desafiante das primeiras horas de um dia de outono, para partir por esses montes à caça! Há por aí uma malta que se levanta sempre tarde, que perde as noites e que não sabe apreciar o sol das manhãs". E a diatribe prosseguiu, com o fuzilamento verbal desses madraços.

Embora a tirada me não fosse dirigida, eu sentia-me potencialmente esmagado, porque a "carapuça" servia-me à medida. Em busca de apoio solidário, olhava para dois ou três camaradas de noitada sentados em volta, que miravam os espelhos da "Pompeia", disfarçando, brincando com as colheres do café, num tempo em que não havia ainda telemóveis para fingir ocupação. E, sei lá!, para dar-me ares de à-vontade, devo ter pedido ao Neves mais um "fino"... 

E lembro-me de ter tido a tentação de dizer: que também eu gostava imenso do nascer-do-sol e do fresco do início da manhã. Só que, imediatamente a seguir, costumava ir deitar-me... A prudência aconselhou-me, e bem, a não lançar essa graçola para a mesa, pela impertinência que o meu estatuto ainda não permitia. Nem quero imaginar o que o dr. Vaz de Carvalho me responderia!

Poucas vezes havia contado esta historieta. Na semana passada, ri-me, com ela, com o Paulo, o genial guitarrista e professor universitário, filho do dr. Vaz de Carvalho, num simpático almoço a dois, no sossego do Lameirão.

Ao princípio desta tarde, soube que o dr. Manuel Vaz de Carvalho tinha falecido, precisamente ontem. Ainda fui a tempo de dar um abraço sentido à sua família. E de aqui deixar esta despretenciosa historieta, em memória de uma das grandes figuras que marcou a Vila Real do meu tempo.   

sábado, 13 de agosto de 2011

Brincar com o fogo

Os "jongleurs" com fogo, para efeitos lúdicos, são excelentes fautores de espetáculos. Divertem-nos, correm riscos limitados e têm uma técnica que produz efeitos, como esta bela imagem de José Miguel retrata, numa das noites mágicas do cruzeiro da "Douro Azul" que hoje acabou.

Estes são também momentos que têm a virtualidade de nos ajudar a refletir. Um amigo, habituado a aplicar a inteligência à vida, deixou-me cair, no decurso do "show": "Ora aqui está quem pode e sabe lidar profissionalmente com as chamas. Pena é que outros, que não sabem, brinquem tantas vezes com o fogo". 

Grande verdade! Cada vez mais... e mais não digo.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Águas passadas no DOC

Ontem, no rio Douro, ao passar em frente ao restaurante DOC (como registo na foto), na Folgosa, entre a Régua e o Pinhão, recordei-me de ter escrito, já há quase três anos, um texto num blogue ("paralelo") que não tenho alimentado muito e que se chama Ponto Come. Tratou-se de uma "estranha" experiência ocorrida nesse mesmo DOC. Nestes tempos de assumida preguiça, e com uma ainda mais assumida publicidade a essa bela mesa gastronómica, aqui fica o texto (ainda antes do AO, para os saudosos):

O entusiasmo com que partira a caminho do DOC foi de tal forma afectado pelo choque da informação recebida que abrandei a velocidade e quase parei o carro. Um jantar no DOC, sem vinho?!

Pois era essa a proposta, nem mais nem menos: uma refeição de degustação, só com águas e total ausência de alcoóis. Confesso que a hipótese de desistir chegou a passar-me pela cabeça e que só o facto de haver um compromisso fixado com antecedência, e não querendo ofender o autor do alvitre – um arquitecto de “primeira água” –, fez com que a minha relutância fosse atenuada.

A imagem que eu mantinha do DOC era muito positiva, pela boa memória de uma visita passada. Críticas lidas ao longo do ano haviam-me alimentado o desejo de regressar e rever a cozinha de Rui Paula, que me diziam estar cada vez mais imaginativa, com uma rara sustentação de qualidade. Mas, tenho de confessar, desse desejo também fazia parte integrante a possibilidade de acompanhar a comida com algum ou alguns dos excelentes Douros que integram a magnífica lista de vinhos que o restaurante sempre apresenta.

O DOC tem uma situação privilegiada, na margem esquerda do Rio Douro, a meio desse percurso mágico que é a sinuosa estrada entre a Régua e o Pinhão, bordejada de vinhas e nomes de quintas, algumas a fazerem-nos recordar rótulos de belas produções vinícolas. O local é magnífico, em dia ameno pode-se utilizar o deck exterior. Dentro, telas de plasma na sala permitem seguir os trabalhos na cozinha, um exercício de transparência que nos aumenta a confiança. Uma área para amenizar a espera foi entretanto criada, com um piano a sugerir interessantes potencialidades e a assegurar que nunca o espaço virá a ser perturbado por uma qualquer “musak” ambiental. E, sobre tudo isso, a certeza de podermos beneficiar de um cenário deslumbrante, no centro de uma paisagem de uma serenidade única.

Tudo bem, tudo isso era verdade, mas a minha perplexidade mantinha-se. A ideia continuava a ser verdadeiramente bizarra: um jantar degustação, sem vinhos, só com águas?! Não sou fundamentalista, não sou um ansioso de vinho, passo imensos dias sem provar uma gota de álcool. Mas no DOC, no coração do Douro, um jantar sem vinho soava-me como que ofensivo a esses “montes pintados” que Araújo Correia nos descreveu.

Foi num misto de perplexidade e curiosidade, com a primeira a superar em muito a segunda, que entrei no restaurante. Ainda lancei, sem sucesso, a ideia de, pelo menos, “abrir” com um gin tónico, como que a criar lastro etílico para sustentar o que aí viria. Fui logo desiludido por vozes suavemente reprovadoras, que me alertaram para os riscos de afectação da pureza gustativa, a qual deveria ser mantida numa espécie de virgindade profiláctica, indispensável ao acolhimento dos gozos que se seguiriam.

E, pronto, lá fomos para a mesa, uma dúzia de convivas, a maioria desconhecidos, uns aparentemente mais convictos das virtualidades do exercício que outros – comigo, francamente, bem ancorado no campo dos últimos.

Tudo começou por um período inicial de carência psicológica, em que um ou outro lá ia recordando a falta do vinho à mesa. A sólida constatação de que o único líquido permitido seria a água provocou então graçolas nervosas, com os mais imaginativos a aventarem o recurso limite a uma “aguardente” ou a uma “água-pé”.

É que, de facto, eram as águas as rainhas da noite. Águas diferentes, umas lisas outras gasosas, umas mais “planas” outras mais “profundas”, algumas algo “agressivas”. Tivemos até o privilégio de provar umas nórdicas de belo design, mais frescas umas que outras. Sempre águas, claro! Apenas uma água era portuguesa e, para mim, totalmente desconhecida.

Durante o repasto, as águas sucediam-se, em copos diferentes, cada uma a acompanhar as (creio!) oito propostas gastronómicas, que não estavam sequer listadas à partida. Um simpático “expert” – reputado conhecedor de vinhos, imaginem! – procurava ajudar-nos a identificar, não apenas a singularidade de cada uma das águas experimentadas (sobre cujas qualidades comparadas alguns dos convivas já ousavam, a medo, “mandar bitaites”), mas igualmente a razão pela qual essa mesma água fora seleccionada para acompanhar tal prato, em função do seu potencial para combinar, por contraste ou complemento, o produto cozinhado.

E foi então que se foi passando essa coisa extraordinária que foi o facto de, sem disso termos real consciência, a ausência do vinho ter deixado praticamente de constituir tema da conversa, muito menos de qualquer angústia. A refeição, regada a águas, ia-se impondo naturalmente, perante o deslumbre dos sentidos, a variedade das escolhas propostas, a riqueza das combinações que nos eram oferecidas.

Duas evidências ficaram claras, na minha perspectiva.

A primeira foi o facto da ausência do vinho nos ter tornado, a todos, muito mais atentos aos sabores do que nos ia sendo apresentado, não nos “distraindo” da essência dos paladares, obrigando a que nos concentrássemos, de forma mais profunda, em cada componente do que nos era sugerido. Por mim, pude constatar que o vinho, em toda a sua imorredoura glória de factor criativo e de qualificador global do gosto, pode ter o “defeito” colateral de nos afastar do esforço de procura de construção/desconstrução do que estamos a saborear, da especificidade de um molho, da ténue diferença gustativa de um vegetal, da “nuance”, quase imperceptível, de um produto sujeito a um tratamento muito sofisticado. Digo isto porque, talvez pela primeira vez desde há muito, consegui descortinar e isolar, combinando-os depois muito melhor, os componentes que o Chefe ia indicando como constituintes das propostas gastronómicas que surgiam.

Quererei dizer, com isto, bem no coração deste nosso Douro, que o vinho passou a ser algo dispensável? Longe disso: o vinho é, cada vez mais, o grande “sublinhador” criativo dos paladares, o provocador de efeitos que se acrescentam aos alimentos e deles consegue extrair novos e decisivos matizes. E tem, além disso, uma importante carga eufórica, que excita as almas e alegra os tempos, particularmente se for de qualidade e se tomado com conta, peso e medida – e, claro, se as garrafas forem abertas com antecedência adequada e se servido à temperatura requerida.

Mas esta interessante experiência teve a virtualidade de nos mostrar que, numa refeição, há mais vida para além do vinho, se bem que a vida e a refeição sejam sempre muito boas com ele à frente.

Uma segunda constatação também se impõe: a virtualidade desta prova, sem o recurso ao complemento do vinho, só teve o sucesso que teve pelo facto de ter sido apoiada na qualidade excepcional de todos os pratos apresentados, que a ausência do álcool permitiu que ganhassem autonomia própria, deixando-os “brilhar” por si mesmos. E foi a circunstância dessa qualidade nunca ter decaído ao longo do jantar, de prato para prato, que conseguiu garantir um apego contínuo e sustentado do nosso paladar àquilo que íamos degustando, sem fazer ressaltar a “saudade” do travo adjectivo do vinho. Com uma refeição banal, por melhores que fossem as águas, tudo não teria passado de uma grande “seca”… E eu, tenho de admitir, fui menos capaz do que outros companheiros desta agradável jornada de ser sensível a algumas características específicas que eram atribuídas e identificadas em cada uma das águas provadas.

Dito isto, vamos ao principal: Rui Paula provou-me definitivamente, nesta memorável noite, que é hoje um dos chefes portugueses com maior criatividade, que consegue aliar a sofisticação de uma cozinha contemporânea de grande nível e excelente apresentação com algumas notas de rodapé gustativo, em que faz orgulhosa questão de trazer-nos à lembrança sabores regionais, na maioria dos casos tipicamente nortenhos, umas vezes de forma subliminar, outras de modo plenamente assumido. Rui Paula consegue assim demonstrar-nos – e entendo que outros deveriam aprender com isso – que o cosmopolitismo sofisticado de uma cozinha não é incompatível com o recurso a citações sensoriais ligadas às raízes geográficas de onde se opera. Pelo contrário, a originalidade do que nos propõe no DOC só ganha com a chamada à mesa desses mesmos elementos.

Num circo, trabalhar sem rede é um risco que enobrece a arte. Num restaurante, ousar um menu sem o recurso ao complemento de vinhos será talvez a prova mais provada de que a grande gastronomia também se constrói na autoconfiança e na certeza de que a qualidade se imporá sempre por si própria. Quando exista no trabalho de um grande Chefe, como é o caso de Rui Paula.

A boa disposição com que saí deste exercício – que, a bem dizer, deveria ter o “mecenato” da Brigada de Trânsito da GNR – leva-me a ecoar a já célebre frase de um velho oficial de Marinha, pouco navegado nas especificidades da gramática, que a nossa História acolheu como uma patética anedota política, quando um dia quis qualificar uma sua qualquer alegria pública: “só tenho um ‘adjectivo’ para expressar o que hoje aqui senti: gostei!”.